28 de set de 2010

"AMOR, FAZ UM CHEQUE!..."



Amor, faz um cheque!...

Celito J. Fritzen


Pensei que fosse briga. Alguns alunos agitados corriam de um lado para outro. Ao me aproximar mais, vi dois carros batidos e alguns senhores engravatados discutindo. Eram os advogados das famílias envolvidas.
Advogado da família é muito útil: A gente paga e ele responde pelos nossos  atos.
É como um dublê. Nas cenas de perigo, o advogado corre os riscos por você. Cada risco tem seu preço.
Como eu não estava entendendo, um aluno me explicou:
 - "tá vendo aqueles dois carros batidos? São de alunos do colégio. O importado é do Christian. Aquele amassado, que foi jogado sobre a calçada, é do Pedro.
O Christian veio em alta velocidade e, ao dobrar a esquina, não conseguiu virar a tempo. Bateu no carro do Pedro, que estava estacionado. Por sorte, o Pedro não estava dentro."
O pai do Christian também gesticulava. Uma distinta senhora, que aparentava ser a mãe do aluno, assistia a tudo dentro de outro carrão.
Pedro, em tom choroso, se lamentava: "o meu carro já estava praticamente vendido. Eu ia entregar na segunda-feira. Ia pegar vinte e seis mil."
- Quanto? Perguntou o pai do Christian.
- Vinte e seis, respondeu timidamente o Pedro.
- Amor, faz um cheque de vinte e seis mil aí pro rapaz, ordenou o pai à distinta senhora do carrão.
E dirigindo-se ao Pedro: "e... sai deste carro, que ele agora é meu."
Foi fácil. Nem foi preciso acionar o "dublê" da família.
Todo o problema foi resolvido com um cheque.  Se no talão de cheques do pai houver mais folhas, Christian nunca  terá problemas com  velocidade, nem com outras infrações.
O leitor certamente está associando este caso  ao do acidente com o  ex-deputado Carli Filho. Coincidência? Não. Lei de causa e efeito. E, contra  esta lei, o dinheiro não produz  efeito.
Lembro que a  mãe do ex-deputado, aflita, se perguntava: Onde foi que eu errei?
Pobre mãe, que agora chora, seu erro foi quando você atribuiu a um talão de cheques um poder que ele não tinha. Seu filho acreditou que o dinheiro podia deletar  todos os delitos. Seu erro foi permitir que seu filho fizesse uso daquele velho chavão: "sabe com quem está falando?"
E agora, com quem estamos falando?
Chora, mãe, pode chorar. Seu filho pode pagar fiança, mas não devolverá a vida aos dois jovens, nem trará de volta a alegria para aquelas mães.
O talão de cheques  pagará uma cirurgia plástica, mas não fará reverter a história, nem apagará a vergonha e o remorso.  Esta cicatriz é indelével.
Mãe, você que passou por esta dura experiência, avise o Christian,  antes que mais jovens sejam assassinados por carrões.

   Celito J. Fritzen é professor emérito de Filosofia, Sociologia e Psicologia.
É também  um sonhador.


 



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