Em uma terra não muito distante....

 

… existia uma cidade chamada Boa Esperança.

Um lugar onde o nome ainda tentava inspirar, mas o dia a dia já contava outra história.

O governante da cidade, conhecido como Senhor Promessas, era mestre nas palavras. Nos palcos e discursos, tudo parecia funcionar perfeitamente. Mas, fora dali, a realidade caminhava por outro rumo.

As ruas começavam a ganhar um visual estranho… o mato crescia livre, como se tivesse mais atenção do que a própria cidade. Praças, que antes eram cheias de vida, agora carregavam silêncio, bancos quebrados e abandono. E pelos cantos, móveis velhos iam surgindo — como se alguém estivesse, aos poucos, desmontando a cidade peça por peça.

Na saúde, o cenário era ainda mais sensível. O povo já nem gritava tanto… era um cansaço quieto, daqueles que mostram que a paciência está no limite.

E havia também as histórias que corriam de boca em boca…

Pessoas que um dia foram afastadas por atitudes graves simplesmente voltavam. Sem explicação, sem mudança aparente… apenas retornavam a seus lugares como se nada tivesse acontecido. Na cidade, isso causava mais do que revolta — causava descrença.

— “Aqui o tempo passa… mas parece que a consequência não chega”, comentavam alguns.

Nas escolas, outro detalhe chamava atenção. Alunos indo estudar sem uniforme, não por escolha, mas por falta. Enquanto isso, discursos sobre educação continuavam sendo feitos com firmeza, como se tudo estivesse em ordem.

Mas talvez uma das partes mais curiosas dessa história fosse o tal do Salão dos Acordos, um lugar criado para observar, questionar e manter o equilíbrio da cidade.

Pelo menos… era o que dizia a sua finalidade.

Na prática, muitos que frequentavam o salão pareciam mais interessados em concordar do que em questionar. Diziam pelas ruas que, se o Senhor Promessas falasse que o céu era verde, teria gente ali dentro procurando o tom exato para concordar.

Alguns moradores até brincavam: — “Aquilo ali não fiscaliza nada… parece mais uma extensão confortável do gabinete principal.”

Mas, como em toda história, havia exceções.


Entre tantos acenos positivos, existiam dois personagens conhecidos como Os Desafinados. Eles não seguiam o ritmo da maioria. De vez em quando, levantavam a mão e diziam: — “Isso não está certo.”

E só isso já era suficiente para causar um silêncio estranho no ambiente.

Na velha praça, ainda ocupada pelo fiel observador Seu Zé do Banco, alguém perguntou: — “Seu Zé, por que parece que nada muda?”

Ele pensou por um instante e respondeu: — “Porque quando erro não tem consequência… promessa vira rotina. E quando quem devia cobrar prefere concordar… aí o erro ganha endereço fixo.”

Boa Esperança continuava viva, sustentada pelo seu povo.

Mas já não era só sobre o que faltava na cidade…

Era sobre o que estava sendo ignorado — todos os dias — como se fosse normal

Qualquer semelhança é pura coincidência 

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